Caroline Aleixo e Carolina Portilho
O
diretor do Parque Nacional da Serra da Canastra, Luiz Arthur
Castanheira, disse em entrevista que a nascente do Rio São Francisco,
situada em São Roque de Minas, secou. Segundo Castanheira, essa nascente
é a principal de toda a extensão do rio, que tem 2.700 km. O São
Francisco é o maior rio totalmente brasileiro, e sua bacia hidrográfica
abrange 504 municípios de sete unidades da federação – Bahia, Minas
Gerais, Pernambuco, Alagoas, Sergipe, Goiás e Distrito Federal. Ele
nasce na Serra da Canastra, em Minas, e desemboca no Oceano Atlântico na
divisa entre Alagoas e Sergipe.
Principal nascente do rio está seca (Foto: Anna Lúcia Silva/G1)
Segundo
Castanheira, o motivo é a estiagem. "Essa nascente é a original, a
primeira do rio e é daqui que corre para toda a extensão. Ela é um
símbolo do rio. Imagina isso secar? A situação chegou a esse ponto não
foi da noite para o dia. Foi de forma gradativa, mas desse nível nunca
vi em toda a história”, afirmou.

O
presidente do Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio São Francisco (CBHSF),
Anivaldo Miranda, disse que, embora a notícia ainda não tenha chegado
oficialmente ao conhecimento do comitê, não causa surpresas em virtude
de essa ser uma das estiagens mais graves desde que foi iniciado o
acompanhamento histórico do rio. Para ele, a situação é preocupante, já
reflete no nível das barragens e ameaça a biodiversidade do São
Francisco.
“Isso não é comum, é preocupante. Não há dúvida de que
algo em grande escala está mudando em nosso ecossistema. As principais
barragens do Alto São Francisco, que são a de Três Marias e Sobradinho,
estão sendo ameaçadas e se aproximam do limite de volume útil de água.
Ou seja, a água dos principais afluentes está chegando ao nível zero, e a
biodiversidade do rio está comprometida, além de a qualidade do rio
estar se deteriorando", explicou Miranda.
O
volume útil da Represa de Três Marias, que é a primeira barragem
construída ao longo do rio, chegou a registrar 6% nesta semana. A de
Sobradinho, 31%. “São níveis baixíssimos e que causam impactos
catastróficos, como já vem ocorrendo no Baixo São Francisco. Com o nível
baixo, o oceano está invadindo o rio e salinizando a água doce”,
concluiu Miranda.
Ele ressaltou que, apesar de a nascente em São
Roque de Minas, no Centro-Oeste do estado, não ser determinante para o
volume de água da bacia, ela serve como um "termômetro", uma vez que o
nível dos reservatórios da região é fundamental para o São Francisco.
Soluções
O presidente do Comitê da Bacia do rio diz que não se pode contar com o
período mais úmido que deve vir após outubro. Ele defende que,
independente das mudanças climáticas, a questão é emergencial e, para
ser amenizada, deve-se mexer no modelo da bacia enérgica do São
Francisco, realizando um grande pacto das águas.
Anivaldo
Miranda pontuou ainda que o poder público deve tratar a bacia
hidrográfica com prioridade por ser uma das principais do Brasil e estar
entre as mais vulneráveis. “O rio atravessa quase 1 milhão de
quilômetros quadrados de região semiárida, atende a região nordeste e
grande parte de Minas, onde há grande vulnerabilidade hídrica”, afirmou.
Diante dessa situação crítica, que na visão do especialista
começou a se agravar em abril do ano passado, o Comitê da Bacia do São
Francisco vai realizar audiências públicas com pessoas diretamente
ligadas à bacia. O diálogo terá duração de 18 meses e será feito com o
governo federal, municípios, usineiros, mineradores, pescadores,
população nativa das comunidades ribeirinhas e comunidade civil. O
objetivo das audiências será discutir sobre o futuro da bacia e
apresentar a urgência de investir na recuperação hídrica do São
Francisco.
Incêndios
Para piorar a situação, a seca tem causado vários focos de incêndio no
Parque Nacional da Serra da Canastra nos últimos meses – levando à
utilização da pouca água do São Francisco para apagá-los. Em julho, o
fogo devastou cerca de 40 mil hectares de vegetação nativa. “Combatemos
as chamas usando água do parque, mas isso não foi o fator mais
agravante. O que pesa mais é a seca, a falta de chuva. Corre pouquíssima
água, e essa realidade é triste”, disse o diretor do parque. O incêndio
mais recente durou quatro dias e, pouco depois, outros focos foram
registrados.
A
estiagem deste ano ocorre em todo o país há vários meses, exceto na
região Sul. Em Minas, diversas regiões enfrentam o problema da seca,
entre elas cidades do Triângulo Mineiro, Zona da Mata e Centro-Oeste do
estado, que já chegaram a decretar situação de emergência pelo
desabastecimento e a multar moradores flagrados desperdiçando água.

E
as previsões são pouco animadoras. A primavera começou às 23h29 desta
segunda-feira (22) e, de acordo com o meteorologista Marcelo Pinheiro,
da empresa Climatempo, a tendência é que na estação a temperatura fique
de 2ºC a 3ºC acima da média nas regiões Sudeste, Centro-Oeste, Norte e
Nordeste. No Sul, a temperatura pode ficar até 3ºC acima da média. Além
disso, a primavera deve ser caracterizada por temperaturas um pouco
acima do normal e chuvas dentro da média na maior parte do país – porém
ainda insuficientes para resolver o problema de falta d’água nos
reservatórios. Especificamente para a região afetada pela seca no
Centro-Oeste de Minas Gerais, a previsão é de que o período de chuvas só comece em outubro.